Os estádios de futebol e a especulação imobiliária

Atual­mente, alguns clu­bes têm ven­dido os seus tra­di­cio­nais está­dios de fute­bol para cons­truí­rem outros em locais afas­ta­dos, usual­mente em áreas dis­tan­tes onde a infra­es­tru­tura urbana não está pronta ou em cida­des vizin­has. Têm como jus­ti­fi­ca­tiva a solução de pro­ble­mas finan­cei­ros ou a ade­quação às novas nor­ma­ti­vas do fute­bol, porém por trás desse pro­cesso, há um apelo ao fluxo do capi­tal e à espe­cu­lação imo­bi­liá­ria incen­ti­vada pelos ges­to­res públicos.

Os está­dios são equi­pa­men­tos públi­cos ou pri­va­dos, de uso cole­tivo. Em mui­tas cida­des, são o único local fechado capaz de con­gre­gar uma mul­ti­dão. Dessa forma, em alguns momen­tos abri­gam even­tos de várias natu­re­zas (shows, fei­ras, encon­tros). Entre­tanto, é o fute­bol que lhe dá alma.

O fute­bol é um esporte moderno, pro­du­zido e dis­se­mi­nado pela Ingla­te­rra no final do século XVIII aos paí­ses com os quais pos­suía tran­sações político-comerciais. Durante os sécu­los seguin­tes, Europa oci­den­tal e Amé­rica do Sul se trans­for­ma­ram nos dois polos onde o fute­bol tornou-se o esporte de iden­ti­fi­cação nacional.

Ini­cial­mente jogado nos espaços públi­cos, o fute­bol foi se ins­ti­tu­cio­na­li­zando e os cam­pos, pos­te­rior­mente trans­for­ma­dos em está­dios, tornaram-se os locais ofi­ciais para a prá­tica. Os está­dios nas­ce­ram modes­tos, tal como era a moda­li­dade. Para os tor­ce­do­res, con­tri­buir para a aqui­sição de um terreno e cons­trução do seu está­dio era motivo de orgulho. De fato, todos os está­dios se desen­vol­ve­ram em áreas não total­mente urba­ni­za­das e, em mui­tos casos, se trans­for­ma­ram em veto­res dessa urbanização.

À medida que o fute­bol se popu­la­ri­zava e se tor­nava uma mer­ca­do­ria ven­dá­vel, os está­dios se adap­ta­vam para aten­der ao público e às exi­gên­cias desse mer­cado. Ao mesmo tempo, os limi­tes da cidade aumen­ta­vam e áreas con­si­de­ra­das afas­ta­das do cen­tro urbano, pas­sa­ram a ser incor­po­ra­das. Os está­dios que outrora esta­vam fora do eixo cen­tral se viram encai­xo­ta­dos den­tro de áreas resi­den­ciais, com pouca pos­si­bi­li­dade de expan­são. O valor de troca do seu terreno aumentou.

Além disso, desde o final do século XX o fute­bol tem se trans­for­mado na mais glo­bal das mer­ca­do­rias, comer­cia­li­zado pela indús­tria do entre­te­ni­mento. Dessa forma, os está­dios pas­sa­ram a ter maior protagonismo.

Local onde era o Campo de Sarrià e hoje corresponde a uma praça e habitações (Foto de Priscila Campos)

Local onde era o Campo de Sarrià e hoje corres­ponde a uma praça e habi­tações (Foto de Pris­cila Campos)

É nesse con­texto que mui­tos clu­bes, para aten­de­rem aos novos tem­pos e exi­gên­cias legais (all-seating sta­dium), ven­de­ram seus está­dios e cons­truí­ram outros, maio­res, mais moder­nos e em terre­nos mais bara­tos. Nes­ses novos equi­pa­men­tos, a arqui­te­tura deve ser inova­dora e enfa­ti­zar a esté­tica, fun­cio­na­li­dade, tec­no­lo­gia e aces­si­bi­li­dade. Com ênfase nos que­si­tos con­forto e segu­ra­nça, os assen­tos devem ser ven­di­dos como mer­ca­do­ria rara. O desen­vol­vi­mento comer­cial deve oco­rrer tam­bém em dias sem jogo, daí a ênfase na mul­ti­fun­cio­na­li­dade. A cons­trução deve ser icô­nica capaz de con­tri­buir para a rege­ne­ração urbana. Por fim, deve ser um atra­tivo turís­tico, de iden­ti­fi­cação cole­tiva, que per­mita a um público mais vasto viven­ciar novas e anti­gas expe­riên­cias, refo­rçado por um ambiente, ao mesmo tempo futu­rista e memorialista.

Assim, o está­dio de Sarrià, em Bar­ce­lona, sede da Copa do Mundo de 1982, campo do RCD Espan­yol, não existe mais; Mes­ta­lla, em Valên­cia, está­dio em uso mais antigo da Espanha, campo do Valen­cia CF, está com os seus dias con­ta­dos, bem como o está­dio Vicente Cal­de­rón, em Madrid, casa do Club Atlé­tico de Madrid, para só citar alguns. A Amé­rica do Sul padece do mesmo mal. Há o pro­cesso de reforma/reformulação dos está­dios e/ou muda­nça de loca­li­zação, poten­cia­li­za­dos pelos mega­even­tos espor­ti­vos. Isso oco­rre tam­bém nos cam­pos de vár­zea, onde um fute­bol que não per­ten­cente ao show­bu­si­ness, mas influen­ciado por ele, se desen­volve. Porém, dife­ren­te­mente dos está­dios, esses cam­pos são extintos.

Os está­dios cita­dos acima pos­suem em comum o fato de serem demo­li­dos e, em seu local, são edi­fi­ca­dos mora­dias de médio/alto padrão aqui­si­tivo que aten­dem a uma par­cela pri­vi­le­giada da popu­lação de uma cidade que cresce e empu­rra a sua massa para locais distantes.

As muda­nças estru­tu­rais nos está­dios afe­tam os usuá­rios, assim, mui­tos tor­ce­do­res se vêm exclui­dos dessa expe­riên­cia de lazer. O mesmo oco­rre nos cam­pos de vár­zea. Ambos se cons­ti­tuem como uma das prin­ci­pais vivên­cias de socia­bi­li­dade e cons­ti­tuição de víncu­los afe­ti­vos. Seus fre­quen­ta­do­res se recon­he­cem pelas emoções e expe­riên­cias vivi­das, apreen­di­das e com­par­til­ha­das, esta­be­le­cendo, assim, uma reali­dade indi­vi­dual e cole­tiva, ao mesmo tempo em que pro­duz memórias.

A expe­riên­cia no está­dio é algo muito impor­tante para a cons­trução real e sim­bó­lica desse equi­pa­mento pelos seus usuá­rios. Ela é feita no coti­diano, tanto pelos jogos impor­tan­tes quanto pelos jogos tri­viais, pela pre­rro­ga­tiva que cada jogo é único.

Ao muda­rem de ende­reço, os está­dios nas­cem com essa iden­ti­fi­cação frouxa, prin­ci­pal­mente que a demanda não é dada pelos tor­ce­do­res, mas sim, pelos admi­nis­tra­do­res dos clu­bes, ges­to­res públi­cos e capi­tal imo­bi­liá­rio, tendo com mote o negó­cio e o lucro.

 

Para maio­res informações:

CAMPOS, Pris­cila A. F., SILVA, Sil­vio R. da . O fute­bol como ins­tru­mento para as trans­for­mações urba­nas em Belo Horizonte/MG. Anais XIII Sim­pó­sio Nacio­nal de Geo­gra­fia Urbana, Rio de Janeiro, nov./2013, p.1–14.

CAMPOS, Pris­cila A. F., SILVA, Sil­vio R. da; AMARAL, Sil­via C. F. Tra­dição e moder­ni­dade no “novo” Minei­rão. Esporte e Socie­dade, Nite­rói, ano 9, n 23, p.1–14, mar./2014.

 

Pris­cila Augusta Ferreira Cam­pos é dou­to­randa em Edu­cação Física pela Uni­ver­si­dade Esta­dual de Campinas/UNICAMP-Brasil.

Ficha biblio­grá­fica:

CAMPOS Pris­cila. Os está­dios de fute­bol e a espe­cu­lação imo­bi­liá­ria. Geo­cri­tiQ. 10 de octu­bre de 2015, nº 173. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2015/10/os-estadios-de-futebol-e-a-especulacao-imobiliaria>

Share and Enjoy

  • Facebook
  • Twitter
  • Delicious
  • LinkedIn
  • StumbleUpon
  • Add to favorites
  • Email
  • RSS

Deja un comentario

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos necesarios están marcados *

Puedes usar las siguientes etiquetas y atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>