O caminhão ainda domina a logística do agronegócio do Centro-Oeste brasileiro

Conhe­cida inter­na­cio­nal­mente como a prin­ci­pal zona pro­du­tora do agro­ne­gó­cio bra­si­leiro, a Região Centro-Oeste (com­posta pelos Esta­dos de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e pelo Dis­trito Fede­ral), ape­sar dos inves­ti­men­tos em curso e pla­ne­ja­dos para o modal ferro­viá­rio, ainda regis­tra na sua pai­sa­gem a oni­pre­se­nça do camin­hão. E, mesmo dis­tante dos prin­ci­pais cen­tros con­su­mi­do­res e do sis­tema por­tuá­rio, a logís­tica, ainda coman­dada pelo trans­porte rodo­viá­rio, encon­trou uma espé­cie de arranjo terri­to­rial para aufe­rir van­ta­gens em uma situação apa­ren­te­mente desfavorável.

Como a área de pro­dução estende-se por cen­te­nas de qui­lô­me­tros em um ema­ran­hado de estra­das vici­nais (geral­mente não pavi­men­ta­das) que mais tarde encon­tra­rão eixos-tronco, é viá­vel tanto para o pro­du­tor quanto para o com­pra­dor que pou­cos pon­tos reúnam con­dições favo­rá­veis para as deci­sões de cunho logís­tico, prin­ci­pal­mente a con­cen­tração da oferta de ser­viços de trans­porte (empre­sas trans­por­ta­do­ras e camin­ho­nei­ros autô­no­mos) e a for­mação do frete com valo­res de refe­rên­cia acei­tos por todos os agentes.

A con­fi­gu­ração terri­to­rial dos nodais do agro­ne­gó­cio oco­rre em cida­des e eixos-tronco por onde quase toda a pro­dução de uma imensa área de influên­cia é orga­ni­zada do ponto de visto logís­tico. É a par­tir des­tes arran­jos que se dá grande parte do escoa­mento final da pro­dução, ou seja, o trans­porte para uni­da­des ter­mi­nais. Levando-se em con­si­de­ração que o trans­porte rodo­viá­rio cria uma topo­lo­gia pró­pria, no Centro-Oeste do Bra­sil situam-se três nodais “secun­dá­rios mono­fun­cio­nais” – Cuiabá-Rondonópolis, no Mato Grosso; Campo Grande-Dourados, no Mato Grosso do Sul e Jataí-Rio Verde-Itumbiara, em Goiás –, pois dire­ta­mente atre­la­dos à logís­tica do agronegócio.

O papel das tra­dings na logís­tica do agro­ne­gó­cio é fun­da­men­tal para se deci­frar o uso do terri­tó­rio em con­so­nân­cia com o trans­porte rodo­viá­rio de carga. As mul­ti­na­cio­nais Bunge, Car­gill e Louis Drei­fus e a bra­si­leira Amaggi mar­cam forte pre­se­nça no Centro-Oeste bra­si­leiro. Pri­mei­ra­mente é neces­sá­rio des­ta­car que o preço do frete é com­pri­mido pelas tra­dings pela com­bi­nação de uma série de ele­men­tos que cola­bo­ram para rebai­xar o valor do ser­viço do trans­porte, como a manu­te­nção de uma ampla car­teira de fro­tis­tas como uma espé­cie de reserva de mer­cado ali­men­tada por comis­sões (um paga­mento extra por tone­lada trans­por­tada sobre o frete acer­tado) e a situação logís­tica pri­vi­le­giada que ocu­pam nos cir­cui­tos espa­ciais pro­du­ti­vos em que atuam.

Caminhões transitando pela BR-364, no trecho Rondonópolis-Alto Araguaia, Mato Grosso - Brasil (Fotografia del autor)

Camin­hões tran­si­tando pela BR-364, no tre­cho Rondonópolis-Alto Ara­guaia, Mato Grosso – Bra­sil (Foto­gra­fia del autor)

Pode-se afir­mar que as tra­dings pos­suem uma com­preen­são mais sis­tê­mica de todo o cir­cuito, criando estra­té­gias orga­ni­za­cio­nais e terri­to­riais que as favo­re­cem , como a alo­cação ótima de uni­da­des arma­ze­na­do­ras; cotação do frete por qui­lô­me­tro rodado (e não por tone­la­gem, ele­mento de alto custo-benefício diante do aumento da capa­ci­dade dos camin­hões); redução da sazo­na­li­dade da safra; con­tra­tos com empre­sas trans­por­ta­do­ras por safra para esca­par das osci­lações de preço de frete; rápida capa­ci­dade de cotação de preço médio de frete num cená­rio com­posto por mui­tas osci­lações diá­rias e uma infi­ni­dade de agen­tes e con­he­ci­mento da pro­gra­mação de acos­ta­gem dos navios.

Nos cir­cui­tos pro­du­ti­vos do agro­ne­gó­cio são as tra­dings, por­tanto, que reúnem as mel­ho­res con­dições para coor­de­nar e con­tro­lar a inter­re­lação entre espaços pro­du­to­res de flu­xos (ordens e deci­sões) e espaços pro­du­to­res de mas­sas (pro­dução pro­pria­mente dita), numa lógica que tem a soja como prin­ci­pal expoente e pau­tada no impe­ra­tivo das expor­tações e no inter­esse das gran­des empre­sas e produtores.

Diante dos pesa­dos inves­ti­men­tos que o governo bra­si­leiro tem rea­li­zado no modal ferro­viá­rio, resta saber como será a reor­ga­ni­zação estra­té­gica das tra­dings em um novo cená­rio. O Mato Grosso, carro-chefe da expan­são da fron­teira agrí­cola e com o agro­ne­gó­cio pra­ti­ca­mente con­so­li­dado em boa parte de seu imenso terri­tó­rio, é o Estado que cer­ta­mente mais será impac­tado pela inter­mo­da­li­dade, con­tri­buindo para a tão desejada inver­são da matriz de trans­por­tes do país.

As modi­fi­cações em curso estão de acordo com as carac­te­rís­ti­cas e van­ta­gens rela­ti­vas a cada modal, tras­fe­rindo gra­da­ti­va­mente o trans­porte de gran­des mas­sas de longo curso do camin­hão para trens e bar­caças. O pro­blema é que os altos cus­tos inci­den­tes são supor­ta­dos em grande parte pela União, para pos­te­rior lici­tação de con­ces­sões ao setor pri­vado. Ou seja, pelo menos em um momento ini­cial, o Estado tem arcado com pesa­dos inves­ti­men­tos inten­si­vos em capi­tal de longo prazo de matu­ração, em detri­mento de inves­ti­men­tos sociais de outra natu­reza. Além disso, nunca é demais salien­tar que a opção ferro­viá­ria refo­rça o papel do Bra­sil como grande expor­ta­dor mun­dial de com­mo­di­ties agro­pe­cuá­rias e mine­rais, man­tendo uma posição des­fa­vo­rá­vel na divi­são inter­na­cio­nal do tra­balho – situação que, acima de tudo, bene­fi­cia em pri­meiro lugar as gran­des tra­dings multinacionais.

 

Para maio­res informações

HUERTAS, Daniel Mon­teiro. Dinâ­mi­cas terri­to­riais dos eixos nodais que coman­dam a logís­tica rodo­viá­ria do agro­ne­gó­cio no Centro-Oeste bra­si­leiro. Revista Ate­liê Geo­grá­fico, Vol.8, nº2, ago./2014. Dis­po­ní­vel em <http://www.revistas.ufg.br/index.php/atelie/article/view/29642>

 

Daniel Mon­teiro Huer­tas é jor­na­lista, geó­grafo e pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fede­ral de São Paulo (Uni­fesp), Brasil.

 

Ficha biblio­grá­fica:

HUERTAS, Daniel Mon­teiro. O camin­hão ainda domina a logís­tica do agro­ne­gó­cio do Centro-Oeste bra­si­leiro. Geo­cri­tiQ. 1 de marzo de 2015, nº 122. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2015/03/o-caminhao-ainda-domina-a-logistica-do-agronegocio-do-centro-oeste-brasileiro/>

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