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Nelson da Nobrega Fernandes, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense. O homem e a sua hora

Eu tal­vez pudesse acen­tuar remi­nis­cên­cias pes­soais e men­cio­nar de público a ami­zade e o con­he­ci­mento que, apa­re­ci­dos na segunda metade da década de 1970, no Depar­ta­mento de Geo­gra­fia da Uni­ver­si­dade Fede­ral do Rio de Janeiro, vie­ram unir a tra­je­tó­ria de dois meni­nos estu­dan­tes de gra­duação; cama­ra­da­gem, mesmo com tra­je­tó­rias ou rotei­ros de vida alguma coisa dis­tan­tes, que desde sem­pre pro­pi­ciou a con­versa franca e calo­rosa e fra­ter­nal entre dois garo­tos que fir­ma­ram ami­zade trinta e oito anos atrás. Ainda que, em alguns perío­dos, a pri­vação da fala fosse imposta por estes exa­tos rotei­ros ou iti­ne­rá­rios de vida que inibi­ram, agora bem sei, con­vi­vên­cia mais amiúde, jamais se trans­for­mou essa tol­hida fala em silên­cio abso­luto, pois em tempo nen­hum inibira a soli­da­rie­dade e o inter­esse mútuo ao redor de nos­sos per­cur­sos de vida, que, aliás, nem tão des­se­mel­han­tes segui­ram, pois,  tive já opor­tu­ni­dade de escre­ver em outro passo, aquilo que mui­tos indi­vi­dual­mente enxer­ga­riam como sin­gu­la­ri­da­des exis­ten­ciais, ao correr do tempo, não deixa de ser ima­gens e prá­ti­cas de um ciclo exis­ten­cial, quase ia dizendo, de uma época geracional.

A dúvida ini­cial é por­que, de fato, trata-se aqui de escre­ver algu­mas pou­cas lin­has sobre o Geó­grafo carioca Nel­son da Nobrega Fer­nan­des, que desce às cata­cum­bas como um dos mais bril­han­tes geó­gra­fos de minha geração. Amo­ro­sa­mente ligado ao povo e ao Rio de Janeiro, a obra de Nel­son N. Fer­nan­des há muito já estava de pé na biblio­teca de assun­tos urba­nos e geo­grá­fi­cos; com a morte do homem Nel­son Fer­nan­des, sua escrita não dei­xará de ofe­re­cer ins­trução para todos aque­les estu­dan­tes e pes­qui­sa­do­res que se debruça­rem sobre a grande cidade gua­na­ba­rina de São Sebas­tião do Rio de Janeiro, que, em sua gra­fia, estender-se-ia para além do corpo mon­tan­hoso – o maciço da tijuca -  que dá algum limite à zona pro­pria­mente praiana dessa metró­pole. O caso é que Nel­son fez de seu per­curso inte­lec­tivo certa espé­cie de expres­são de gran­deza e meio de defesa do subúr­bio ao acen­tuar, pela ordem, o impor­tan­tís­simo papel de esse arra­balde na his­tó­ria mais geral da cons­ti­tuição de cida­des e, abso­lu­ta­mente soli­dá­rio ao povo bra­si­leiro e carioca, pro­nun­ciar com cla­reza o vocá­bulo subúr­bio no pro­cesso urbano do Rio de Janeiro.

Para ele, Nobrega Fer­nan­des, razões espe­ci­fi­ca­mente cario­cas expli­cam o depre­ciado ponto de vista que o subúr­bio rece­beu na geo­gra­fia his­tó­rica do Rio de Janeiro. Foi a Geo­gra­fia que expli­ci­tou o sin­gu­lar con­ceito carioca de subúr­bio; mas foi Nel­son Fer­nan­des que cha­mou a ate­nção para o seu sig­ni­fi­cado ideo­ló­gico: menos­ca­bar o povo tra­bal­ha­dor e seu espaço de vivên­cia na cidade do Rio de Janeiro. Des­pres­tí­gio social e des­prezo pra­ti­cado coti­dia­na­mente pelo poder de Estado que, segundo a sua dis­ser­tação, O Rapto ideo­ló­gico da Cate­go­ria Subúr­bio, Rio de Janeiro, 1858–1945, Api­curi, RJ, 2011, per­ma­ne­cem no inte­rior desse con­ceito desde as refor­mas urba­nas do engen­heiro e pre­feito Pereira Passos.

 Uma lei­tura pos­sí­vel de O Rapto Ideo­ló­gico… , aliás, é compreendê-lo como narra­tiva da expul­são de pobres da cidade do Rio de Janeiro para aque­les locais que foram con­de­na­dos como subúr­bio pela classe domi­nante carioca e bra­si­leira.  Já em Esco­las de Samba: sujei­tos cele­bran­tes e obje­tos cele­bra­dos, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, coleção memó­ria carioca, RJ, 2001, ver­são edi­tada de sua tese de dou­to­ra­mento, acom­pan­hando a geo­gra­fia his­tó­rica e cul­tu­ral do nas­ci­mento do samba e sua tra­je­tó­ria no Rio de Janeiro, Nel­son inves­tiga, desde a Man­gueira, Serrinha, Praça Onze, bai­rro da Penha, o vigo­roso retorno daque­les mes­mís­si­mos tra­bal­ha­do­res a sua cidade, per­qui­rindo o ritmo de ruas e per­so­na­gens e loca­li­da­des até a cele­bração nacio­nal ao redor do samba carioca, desse modo – embora Luís da Câmara Cas­cudo não tenha sido men­cio­nado − refa­zendo a exu­be­rante pre­se­nça da ciên­cia do povo, ou da cul­tura popu­lar, na cidade de São Sebas­tião do Rio de Janeiro. Sob esse ângulo, ade­mais, Nel­son dando a devida ate­nção para a geo­gra­fia do subúr­bio e do samba, acer­ta­da­mente sua obra se posi­cio­nou algo dis­tante do espaço praiano da zona sul carioca e de sua musi­ca­li­dade bossa-novista, de classe-média, ino­cu­lada pela sono­ri­dade norte-americana.

Eu não sei dizer, por fim − final pro­vi­só­rio, como tudo −, se o pro­fes­sor Nel­son N. Fer­nan­des, no tempo, será con­he­cido como um autor cuja obra exis­tirá vin­cu­lada ao Rio de Janeiro. Seus estu­dos e arti­gos, pos­te­rio­res ao dou­to­ra­mento, sobre o papel urbano e carioca do Exér­cito Bra­si­leiro afir­ma­riam o nexo carioca. Por essa trilha o even­tual futuro da cidade do Rio de Janeiro seria a for­tuna de Nel­son Fer­nan­des, visto que, além de data­das, todas e quais­quer obras tocam alguma estre­ma­dura. Toda­via, se para nós geó­gra­fos o mundo é uma abs­tração, já que ele, este pro­priís­simo mundo, apresenta-se como pro­cesso amal­ga­mado ao espaço, a lar­gueza fron­tei­riça da obra do geó­grafo Nel­son da Nobrega Fer­nan­des exis­tirá para além de seu visí­vel e espe­ci­fico espaço guanabarino.

Para mayor infor­ma­ción:

FERNANDES, Nel­son da Nóbrega. Esco­las de samba: sujei­tos cele­bran­tes e obje­tos cele­bra­dos. Rio de Janeiro: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, 2001. [En línea].

FERNANDES, Nel­son da Nobrega. O Rapto Ideo­ló­gico da Cate­go­ria Subúr­bio: Rio de Janeiro – 1858/1945. Rio de Janeiro: Apicuri/FAPERJ, 2011.

Júlio Ambro­zio é Pro­fe­sor do Depar­ta­mento de Geo­ciên­cias, Uni­ver­si­dade Fede­ral de Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil.

 

Ficha biblio­grá­fica:

AMBROZIO, Júlio. Nel­son da Nobrega Fer­nan­des, pro­fes­sor do Depar­ta­mento de Geo­gra­fia da Uni­ver­si­dade Fede­ral Flu­mi­nense. O homem e a sua hora. Geo­cri­tiQ. 1 de julio de 2014, nº 66. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2014/07/nelson-da-nobrega-fernandes-professor-do-departamento-de-geografia-da-universidade-federal-fluminense-o-homem-e-a-sua-hora/>

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