Os povos indígenas Karajá de Aruanã-Go e conflitos de apropiação no Cerrado

O cha­mado novo desen­vol­vi­men­tismo do Bra­sil coman­dado pelo pro­grama PAC – Pro­grama de Ace­le­ração – tem se cons­ti­tuído numa ala­vanca de muda­nças sociais. São cerca de 30 mil­hões de pes­soas que, nas peri­fe­rias das metró­po­les bra­si­lei­ras, acen­dem como classe con­su­mi­dora de veícu­los, ele­tro­do­més­ti­cos, via­gens. Inter­na­mente, são cons­truí­das estra­das, pon­tes, rede ferro­viá­ria, usi­nas hidre­lé­tri­cas, o que sig­ni­fica um alto nível de pres­são sobre o terri­tó­rio, gerando impac­tos nos gra­dien­tes natu­rais e socio­cul­tu­rais. Os povos indí­ge­nas do Norte do país e do Cerrado goiano vêem as suas terras e seus terri­tó­rios sofre­rem abalos.

OS POVOS INDÍGENAS DO NORTE DO PAÍS E DO CERRADO GOIANO VÊEM A SUAS TERRAS E SEUS TERRITÓRIOS SOFREREM ABALOS

Situações finas e sutis reve­lam o mundo Karajá: o filho do caci­que bêbado no barco flu­tuante, tímido, sob a lide­ra­nça de um jovem de Goiâ­nia, cambaleia-se. Num fol­guedo artís­tico, meni­nos e meni­nas Karajá pulam corda a beira do rio Ara­guaia sob o poente dei­tado na pla­centa do rio. Lindo. Sujei­tos indí­ge­nas da aldeia Buri­dina esta­be­le­cem uma rede de negó­cios para adqui­rir matéria-prima do Cerrado, como plu­má­rio, semen­tes e outros arte­fa­tos em Goiâ­nia e, daí, faze­rem as peças arte­sa­nais que serão ven­di­das no museu Karajá à mar­gem do Ara­guaia. Alguns sujei­tos Karajá tornam-se  sig­na­tá­rios de cul­tos evan­gé­li­cos; o hábito de assis­tir nove­las aden­tra a aldeia. Há notí­cias que algu­mas moças indí­ge­nas estão pros­ti­tuindo. O dedo lépido e habi­li­doso  de uma lide­ra­nça indí­gena mais velha tra­nça a palha na ligei­reza incom­preen­dida por nós no cen­tro de for­mação. Cria­nças pulam a janela sobem as árvo­res e esca­pam das aulas de Geografia.

Cria­nças da Aldeia Karajá de Aruanã

5_Foto Eguimar Felicio

A chuva, como um véu branco líquido, tinge a pai­sa­gem do campo de fute­bol de Buri­dina, momento ale­gre, festa esté­tica em que as cria­nças riem, pulam, como se o fute­bol fosse a namo­rada da chuva…A bolsa famí­lia, pro­grama que visa erra­di­car a pobreza no Bra­sil,  é mesmo irre­me­diá­vel para man­ter povos na aldeia…A aldeia é um mundo; o mundo do Cerrado inclui vários luga­res e povos; o espaço pos­sui uma dimen­são étnica; o povo veio do fundo da água; o terri­tó­rio é frag­men­tado e redu­zido, dispu­tado e vivido…

OS POVOS KARAJÁ INTERNALIZAM EM SUAS RELAÇÕES COMO LUGAR CONSIGO MESMOS

Com o obje­tivo de mos­trar o modo como a inse­rção eco­nô­mica do Cerrado goiano em nível nacio­nal e inter­na­cio­nal impacta, ao mesmo tempo, o gra­diente natu­ral e a vida dos povos tra­di­cio­nais, desen­vol­vem uma refle­xão a par­tir da seguinte questão-problema: como os povos Karajá ela­bo­ram apro­priação da bio­di­ver­si­dade do Cerrado imerso nos con­fli­tos terri­to­riais que con­fi­gu­ram o Cerrado goiano? A pers­pec­tiva teó­rica que ali­men­tou a inves­ti­gação girou em torno do que se tem deno­mi­nado “abor­da­gem terri­to­rial”. A par­tir desse prisma ten­tou  aglu­ti­nar os com­po­nen­tes socio­eco­nô­mi­cos aos socio­cul­tu­rais e sim­bó­li­cos, de maneira a cap­tar a força impe­ra­tiva da eco­no­mia capi­ta­lista e a ação resis­tente da cul­tura Karajá nos inters­tí­cios dessa eco­no­mia, logrando, como resul­tado, isso: os povos Karajá inter­na­li­zam em suas relações com o lugar e con­sigo mes­mos, os con­fli­tos exter­nos em forma de muda­nça de hábi­tos ali­men­ta­res, lazer, tra­balho, mora­dia. Mas agem para criar alter­na­ti­vas que, den­tro do con­flito, vis­lum­brem a sobre­vida de suas tra­dições e de seus afetos.

Para maio­res informações:

CHAVEIRO, E. F. Cerrado e terri­to­rio: con­fli­tos socio­es­pa­ciais na apro­priação da Bio­di­ver­si­dade – os povos indí­ge­nas Kara­jás, Aruanã-Go. Ate­liê Geo­grá­fico. Goiâ­nia: UFG, feve­reiro de 2010, v. 04, n. 1, p. 64–83. <http://www.revistas.ufg.br/index.php/atelie/article/view/16683>

Egui­mar Felí­cio Cha­veiro é pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fede­ral de Goiás, Brasil.

 

Ficha biblio­grá­fica
CHAVEIRO, E. F. Os povos indí­ge­nas Karajá de Aruanã-Go e con­fli­tos de apro­piação no Cerrado. Geo­cri­tiQ. 20 de octu­bre de 2013, nº 6. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2013/10/os-povos-indigenas-karaja-de-aruana-go-e-conflitos-de-apropiacao-no-cerrado/>

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One thought on “Os povos indígenas Karajá de Aruanã-Go e conflitos de apropiação no Cerrado

  1. Os povos indí­ge­nas do Bra­sil, espe­cial­mente do Cerrado goiano, estão acos­sa­dos pelas moder­ni­zações. Mas mesmo assim, eles aju­dam a recom­por a visão de uma vida ligada à terra.

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