Os Motoboys no Globo da Morte: circulação no espaço e trabalho precário na cidade de São Paulo

A ati­vi­dade pro­fis­sio­nal dos moto­boys é um fenô­meno urbano bas­tante recente. Cada vez mais inte­grada à pai­sa­gem da cidade de São Paulo, ela tem suas ori­gens em mea­dos da década de 1980 e impulso defi­ni­tivo no início da década de 1990. Devido ao seu rápido e expo­nen­cial cres­ci­mento, alia­dos à dinâ­mica e natu­reza de seu tra­balho, os moto­boys pas­sam a ser alvos cer­tos e cons­tan­tes das mais diver­sas con­tro­vér­sias e con­fli­tos no trân­sito paulistano.

Isso por­que os moto­boys ace­le­ra­ram rapi­da­mente suas moto­ci­cle­tas pelas as ruas e as ave­ni­das de São Paulo, zigue­za­gueando entre um carro e outro, para que as entre­gas (peque­nas mer­ca­do­rias e docu­men­tos diver­sos) pre­ci­sam che­gar ao seu des­tino certo e no tempo pre­visto. E é esta relação tênue com a cidade, entre as exi­gên­cias do tempo e limi­tes do espaço, a expec­ta­tiva e a satis­fação das entre­gas rápi­das, que a ati­vi­dade pro­fis­sio­nal dos moto­boys, sub­me­tida às estra­té­gias e às racio­na­li­da­des do capi­ta­lismo con­tem­po­râ­neo, garante parte das exi­gên­cias da cir­cu­lação rápida e con­sumo na cidade de São Paulo.

É neste sen­tido que a ati­vi­dade pro­fis­sio­nal dos moto­boys ajuda a reve­lar as trans­for­mações socio­es­pa­ciais na cidade e no mundo do tra­balho. Isso por­que, parte con­si­de­rá­vel des­ses pro­fis­sio­nais passa a ocu­par os postos da sub­con­tra­tação, do tra­balho par­cial, do tra­balho tem­po­rá­rio, do tra­balho ter­cei­ri­zado, espe­cial­mente aque­les que dis­pa­ram na garupa da informalidade.

Manifestação dos Motoboys no Centro de São Paulo – Foto do autor, 18/01/2008.

Mani­fes­tação dos Moto­boys no Cen­tro de São Paulo – Foto do autor, 18/01/2008.

A ati­vi­dade dos moto­boys não é um fenô­meno exclu­sivo de São Paulo. Ao con­trá­rio. É um fenô­meno que se mul­ti­plica espe­cial­mente nas gran­des cida­des bra­si­lei­ras – até mesmo inter­na­cio­nais. Na capi­tal pau­lista, acredita-se que o número pode che­gar até 250 mil pro­fis­sio­nais. Um estudo publi­cado pela Com­pan­hia de Engen­ha­ria de Trá­fego (CET), em 2003, mos­tra que dos 1141 moto­ci­clis­tas entre­vis­ta­dos, 62% eram moto­boys e 38% eram moto­ci­clis­tas. Entre os pri­mei­ros, verifica-se o pre­do­mí­nio do sexo mas­cu­lino: são 99% do total. Outro que­sito que é pos­sí­vel obser­var relaciona-se à faixa etá­ria dos moto­boys, pois há um pre­do­mí­nio entre 20 e 24 anos, repre­sen­tando 32%; se agru­par­mos aque­les de faixa etá­ria entre 18 e 29 anos, verifica-se um pre­do­mí­nio de 77%.

Mas ape­sar dos núme­ros apon­ta­rem uma ate­nção espe­cial aos jovens moto­boyso fato é que inde­pen­dente da idade e do gênero, o que pre­va­lece é a neces­si­dade de garan­tir as entre­gas rápi­das no espaço vol­tado às exi­gên­cias da cir­cu­lação. Mas esta racio­na­li­dade que enqua­dra os moto­boys como parte desta nova con­dição da cidade torna-se ainda mais aguda quando aque­les na infor­ma­li­dade, com suas deco­rren­tes for­mas de remu­ne­ração (basi­ca­mente por hora ou por entre­gas efe­tua­das), aca­bam sendo indu­zi­dos a um ritmo intenso de entre­gas e, por con­se­guinte, expos­tos as mais diver­sas situações de ris­cos e aci­den­tes de trân­sito ineren­tes a sua ati­vi­dade profissional.

20160015_Figura 2 Ricardo Barbosa

Parte da expli­cação desse fenô­meno urbano que des­ponta em São Paulo com maior inten­si­dade na década de 1990 em diante, refere-se ao his­tó­rico pri­vi­lé­gio con­ce­dido aos moto­ris­tas de auto­mó­veis em detri­mento dos trans­por­tes cole­ti­vos, que indu­ziu um aumento exces­sivo de auto­mó­veis e altos índi­ces de con­ges­tio­na­mento em São Paulo.

É neste sen­tido que, à pri­meira vista, a moto­ci­cleta apa­re­cia como uma alter­na­tiva moto­ri­zada e viá­vel ao con­ges­tio­na­mento do trân­sito pau­lis­tano. Não por acaso que na cidade de São Paulo, segundo o Detran (Depar­ta­mento Esta­dual de Trân­sito), em 2000 a frota de moto­ci­cle­tas era de 348.098 uni­da­des e, em 2008, pas­sou para 658.973, o que repre­sen­tou um aumento apro­xi­mado de 90% no período.

Toda­via, o cres­ci­mento da frota de moto­ci­cle­tas aca­bou gerando uma série de con­fli­tos e disputa pelo espaço, prin­ci­pal­mente entre os moto­ris­tas de auto­mó­veis, his­to­ri­ca­mente pri­vi­le­gia­dos, e moto­boys, os “inva­so­res”. E, jus­ta­mente, a par­tir desta relação con­fli­tuosa que se veri­fi­cou uma aumento intenso dos aci­den­tes envol­vendo moto­ci­cle­tas – mesmo não espe­ci­fi­cando se o moto­ci­clista era ou não moto­boy –, con­forme dados da CET, foram regis­tra­dos, em 2007, 15.193 aci­den­tes com víti­mas envol­vendo moto­ci­cle­tas (55% do total), apro­xi­ma­da­mente 41 aci­den­tes por dia. Já em relação aos aci­den­tes fatais envol­vendo as moto­ci­cle­tas, em 2007, acon­te­ce­ram 466 óbi­tos, cerca de 1,3 por dia.

 

Para maio­res informações:

SILVA, Ricardo Bar­bosa da. Moto­boys no Globo da Morte: cir­cu­lação no espaço e tra­balho pre­cá­rio na cidade de São Paulo. São Paulo: Humanitas/Fapesp, 2011. 260 p. ISBN: 978–85-7732–163-6.

SILVA, Ricardo Bar­bosa da. Moto­boys, Cir­cu­lação no Espaço e Tra­balho Pre­cá­rio na Cidade de São Paulo. Geo­usp (USP), 2009, nº 26, p. 41–58. Dis­po­ní­vel em: http://citrus.uspnet.usp.br/geousp/ojs-2.2.4/index.php/geousp/article/viewArticle/160

Ricardo Bar­bosa da Silva é Dou­tor em Geo­gra­fia Humana pela Uni­ver­si­dade de São Paulo e Pro­fes­sor da Facul­dade de Tec­no­lo­gia do Estado de São Paulo.

Ficha biblio­grá­fica:

SILVA, Ricardo Bar­bosa da. Os Moto­boys no Globo da Morte: cir­cu­lação no espaço e tra­balho pre­cá­rio na cidade de São Paulo. Geo­cri­tiQ. 20 de abril de 2016, nº 217. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2016/04/os-motoboys-no-globo-da-morte-circulacao-no-espaco-e-trabalho-precario-na-cidade-de-sao-paulo>

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