Os desafios das reservas extrativistas na região amazônica

O sur­gi­mento de inúme­ros movi­men­tos sociais na década de 1980, no Bra­sil, espe­cial­mente na Ama­zô­nia, favo­re­ceu a for­mação e visi­bi­li­dade de comu­ni­da­des poli­ti­ca­mente orga­ni­za­das que, aos pou­cos, pas­sa­ram a ser ato­res indis­pen­sá­veis na ges­tão ambien­tal. Estes con­tri­buí­ram para a per­mea­bi­li­dade das estru­tu­ras esta­tais, a fim de que polí­ti­cas públi­cas inclu­si­vas fos­sem implan­ta­das no país. Den­tre elas, as polí­ti­cas socio­am­bien­tais, as quais reque­rem a par­ti­ci­pação de ato­res de esfe­ras dife­ren­cia­das da socie­dade, numa con­vi­vên­cia que é per­meada de con­fli­tos ineren­tes às suas posições e à diver­si­dade de seus pro­je­tos. A ori­gem das reser­vas extra­ti­vis­tas bra­si­lei­ras é fruto desse pro­cesso. Refle­tir sobre os desa­fios da imple­men­tação des­tas reser­vas é o obje­tivo deste artigo.

A Reserva Extra­ti­vista (RESEX) é uma área ocu­pada por popu­lações que uti­li­zam pro­du­tos extraí­dos para sua sub­sis­tên­cia e tam­bém comer­cia­li­zação. Por ser uma área de con­ser­vação e de pro­dução, a explo­ração dos recur­sos natu­rais deve basear-se num plano de manejo, que deve ser cons­truído com a par­ti­ci­pação de todos os ato­res envolvidos.

A cons­trução social de uma RESEX é um pro­cesso evi­den­te­mente com­plexo, que sugere regu­lar os usos e o manejo – por exem­plo, o que pes­car ou cole­tar, como, quando, em que medida, para quem… – e, além disso, novas for­mas de arti­cu­lações entre seus agen­tes locais e exter­nos, con­fi­gu­rando assim, um espaço de co-gestão.

20150013_imagen Sebastia Rodrigues

Loca­li­zação da Reserva Extra­ti­vista Marinha de Caeté-Taperaçu (foto­graia del autor).

Os prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas desse pro­cesso de co-gestão são as popu­lações tra­di­cio­nais e o Estado, este, prin­ci­pal­mente atra­vés do Ins­ti­tuto Chico Men­des de Con­ser­vação da Bio­di­ver­si­dade (ICM­Bio). O prin­cí­pio é o da par­ti­ci­pação, que requer o recon­he­ci­mento mútuo de sabe­res e de com­pe­tên­cias. Os mora­do­res e usuá­rios tra­di­cio­nais são aque­les que devem dar os maio­res pas­sos para assu­mir os novos papéis e serem recon­he­ci­dos interna e exter­na­mente. Cumpre-lhes, ao mesmo tempo, adap­tar suas for­mas de se orga­ni­zar cole­ti­va­mente e enten­der os pro­ces­sos for­mais buro­crá­ti­cos do estado brasileiro.

Em estudo sobre as per­ce­pções locais de mora­do­res e usuá­rios da Reserva Extra­ti­vista Marinha de Caeté-Taperaçu, Bra­ga­nça, PA, se iden­ti­fi­cou que pre­va­lece entre estes a visão posi­tiva em relação à exis­tên­cia e con­so­li­dação da RESEX. Mas, o recon­he­ci­mento dela em seus arran­jos ins­ti­tu­cio­nais espe­cí­fi­cos, ainda parece insu­fi­ciente. Notou-se que a preo­cu­pação ambien­tal, não está sepa­rada das ques­tões mais urgen­tes da segu­ra­nça dos meios de tra­balho e da qua­li­dade de vida dos mora­do­res e usuários.

Esta reali­dade evi­den­cia dois aspec­tos: 1) a criação de reser­vas extra­ti­vis­tas indica o recon­he­ci­mento por parte do Estado, ape­sar de suas con­tra­dições, da impor­tân­cia des­tas popu­lações tra­di­cio­nais envol­vi­das em polí­ti­cas de con­ser­vação da bio­di­ver­si­dade e de suas prá­ti­cas e valo­res; 2) uma popu­lação que gosta do lugar, que o valo­riza, que não pre­tende se mudar. E que aspira segu­ra­nça para mel­ho­rar a vida; espera muito do Estado, mas cri­tica tam­bém suas pró­prias ati­tu­des na relação com o meio e está dis­posta a ado­tar novas pos­tu­ras quanto a isso.

Não obs­tante as difi­cul­da­des de par­ce­rias neces­sá­rias entre os envol­vi­dos, a ins­ti­tuição RESEX tornou-se uma con­quista de direi­tos agrá­rios e sociais para essas popu­lações. Longe, por­tanto, de uma con­ces­são ou da expres­são de um con­senso mun­dial face à crise eco­ló­gica, foi con­cre­ti­zado no direito a posse cole­tiva das flo­res­tas e a defesa de sua pre­ser­vação, jun­ta­mente com a manu­te­nção dos seus modos de vida. Estes gru­pos mino­ri­tá­rios demons­tra­ram, com suas lutas, a poten­cia­li­dade de influen­ciar, inclu­sive, no con­texto global.

Os estu­dos sobre ges­tão de recur­sos comuns na pers­pec­tiva de sis­te­mas sócio eco­ló­gi­cos, no Bra­sil e no exte­rior, vêm enfa­ti­zando esse tipo de desa­fios. O que se pre­tende con­ser­var não é um meio ambiente externo, obje­tivo, neu­tro, com recur­sos imer­sos, mas sis­te­mas com­ple­xos, dos quais par­ti­ci­pam os usos huma­nos e seus significados.

Neste con­texto, os movi­men­tos sociais arti­cu­la­dos com os inte­lec­tuais na Ama­zô­nia tem sido de sig­ni­fi­ca­tiva impor­tân­cia para a garan­tia dos direi­tos e mel­ho­ria da qua­li­dade de vida das popu­lações tra­di­cio­nais, ser­vindo de exem­plo para o resto do Bra­sil e do mundo.

A aná­lise das expec­ta­ti­vas e moti­vações dos ato­res como se pro­cu­rou fazer no refe­rido estudo, fundamentam-se nessa noção de inter­ações múl­ti­plas. Tais aná­li­ses podem gerar dados capa­zes de con­tri­buir na con­so­li­dação de Uni­da­des de Con­ser­vação que asse­gu­ram direi­tos às popu­lações tra­di­cio­nais, expe­riên­cias ainda inova­do­ras duas déca­das depois da Con­fe­rên­cia das Nações Uni­das sobre o Meio Ambiente e o Desen­vol­vi­mento, a Rio 92, e dos com­pro­mis­sos inter­na­cio­nais que se seguiram.

Para maio­res informações:

SILVA JUNIOR, Sebas­tião Rodri­gues da; SIQUEIRA, Deis; MANESCHY, Maria Cris­tina; RIBEIRO, Tânia Gui­ma­rães. Con­ser­vação dos recur­sos natu­rais, prá­ti­cas par­ti­ci­pa­ti­vas e ins­ti­tu­cio­na­li­zação: Reserva Extra­ti­vista de Caeté-Taperaçu/Amazônia Bra­si­leira. Scripta Nova. Revista Elec­tró­nica de Geo­gra­fía y Cien­cias Socia­les. [En línea]. Bar­ce­lona: Uni­ver­si­dad de Bar­ce­lona, 20 de mayo de 2014, vol. XVIII, nº 477. <http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-477.htm>. ISSN: 1138–9788.

Sebas­tião Rodri­gues da Silva Junior é soció­logo e pro­fes­sor da Uni­ver­si­dade Fede­ral do Pará (UFPA), Cam­pus de Bra­ga­nça. Brasil.

 

Ficha biblio­grá­fica:

SILVA JUNIOR, Sebas­tião Rodri­gues da. Os desa­fios das reser­vas extra­ti­vista na região ama­zô­nica. Geo­cri­tiQ. 10 de abril de 2015, nº 131. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2015/04/os-desafios-das-reservas-extrativistas-na-regiao-amazonica-2/>

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