O esporte é um dos fenômenos culturais mais significativos dos últimos cem anos, seja por sua dimensão econômica, seja pelo número de pessoas envolvidas na prática esportiva, direta ou indiretamente. Para se chegar a níveis altos de rendimento, no entanto, é preciso iniciar a prática com pouca idade, embora haja diferenças entre as modalidades esportivas, exige de seus praticantes uma dedicação quase que integral e exclusiva. Refiro-me aqui ao tênis, à natação e à ginástica artística e rítmica, talvez as mais precoces das modalidades. Embora possamos observar que outras modalidades, que sempre tiveram entre seus praticantes adultos de mais idade, hoje também exigem seu início precoce, como é o caso do futebol.
Ao observarmos o meio esportivo percebemos uma dinâmica bastante particular das relações interpessoais, com ênfase nas relações parentais (pais e filhos). Na idade da iniciação esportiva e na fase inicial de treinamento e competição as crianças e adolescentes são levadas aos eventos (competições locais, regionais e nacionais) na maioria das vezes, por seus pais. Isto é ainda mais notório nas modalidades individuais como o tênis e a natação. Não raro, os pais assumem, inclusive, o papel de treinadores de seus filhos, principalmente quando já foram praticantes da respectiva modalidade.
A precocidade na iniciação esportiva leva para a quadra ou para a pista crianças que, na maior parte das vezes, estão em etapas bastante importantes e conflituosas da constituição do eu. Mais ainda, são levadas a praticar o esporte pelos desejos narcísicos de seus pais. A criança é motivada a participar de treinos e competições pelo ideal parental. Ela deseja obter a atenção, o carinho e o amor de seus pais através da satisfação narcísica dos pais. Estes esperam, por sua vez, reencontrar, na realização esportiva de seus filhos, a satisfação de seus desejos, ou ainda, desejam ver em seus filhos a superação de suas frustrações, esportivas ou não.
No meio esportivo é comum acompanhar, por exemplo, as brigas (às vezes corporais) entre pais, pais e atletas, pais e árbitros, ou ainda ver como os pais se movimentam nas arquibancadas, repetindo os gestos dos filhos, como se eles próprios estivessem participando do jogou ou competição. Frases como “gostaria que meu pai conversasse comigo sobre outra coisa senão o tênis”, são queixas bastante comuns entre os jovens esportistas.
O medo de perder o amor dos pais, no entanto, impede de contestá-los em suas atitudes e mais ainda, não lhes permite tomar decisões ainda mais autônomas, como, por exemplo, abandonar a prática esportiva. Isto nos leva a refletir sobre as implicações do narcisismo parental sobre o desempenho esportivo dos jovens esportistas, principalmente no momento em que estes entram em conflito em sua motivação para a prática esportiva: continuar, para satisfazer o ideal de ego parental, o que é denominado de amor de desempenho, ou continuar a prática esportiva para satisfazer seus próprios desejos, o que é denominado de desejo de competição. Pra isto é necessário perder no esporte, sem medo de perder o amor dos pais e sem medo de perder seu lugar de onipotência. O conflito psíquico interno se encontra ampliado pela demanda parental, e as exigências da competição, deixando o adolescente imerso em um desamparo do qual o ideal do ego se desfaz (e com ele a motivação) sem que um novo ideal o substitua. O acompanhamento nesse desamparo, no limite do vazio, permitiu fazer o luto do ideal parental e da onipotência infantil que o marca. Esta seria, então, uma etapa em que a derrota é necessária para que o sujeito-esportista possa aceitar perder para ganhar. Isto é o que se denomina, no campo esportivo, de contra desempenho.
Outra maneira do jovem esportista resolver os conflitos entre seus desejos e os desejos dos pais, e que tem consequências mais delicadas, é aquela que leva às lesões no esporte. Dias relata em seu trabalho o caso de uma garota tenista, que para “amenizar” as expectativas de seus pais e treinador sobre seu desempenho, não segue, por exemplo, suas orientações para aquecimento o que a leva a ter lesões consecutivas. Ana Maria começou a sentir dores nos ombros, o que a levou a ausentar-se dos treinos em várias ocasiões. Quando voltava, contra as orientações do técnico, exagerava no treino e se lesionava novamente. Como os pais e treinador não acreditavam na real dimensão de suas lesões, ela avisou: “quando eu me machucar pra valer eles vão ver”, já anunciando sua solução para o conflito. Em curto espaço de tempo Ana Maria abandonou as quadras.
Esses dois exemplos podem ilustrar, face à grande quantidade de crianças e adolescentes que praticam esporte, o quanto a psicanálise tem a dizer no campo da subjetividade do sujeito esportista e de seus familiares. Muitas vezes o sofrimento destes atletas é atribuído simplesmente ao contexto esportivo, sendo a dimensão da constituição psíquica do sujeito relegada a um segundo plano, constituindo marcas profundas para o resto de suas vidas.
Para maiores informações:
MORAGUES, J.L. Psicologia do desempenho: corpo pulsional e corpo mocional. São Paulo: Escuta, 2003.
DIAS, M.H. Sobre o esporte de alto rendimento: reflexões a partir da psicanálise e da utopia. Dissertação de mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009
Pedro José Winterstein é Professor Associado aposentado pela Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.
Ficha bibliográfica:
WINTERSTEIN, P.J. Desempenho esportivo e narcisismo. GeocritiQ. 20 de mayo de 2014, nº 53. [ISSN: 2385–5096]. <http://www.geocritiq.com/2014/05/desempenho-esportivo-e-narcisismo/>

